Entrevista concedida ao IHU online -  Instituto Humanitas – Unisinos, por ocasião do aniversário de 80 anos:

Pe. Libânio
Pe. Libânio

- Qual o significado que o senhor dá para a sua vida, no ano em que celebra 80 anos?

Acolhi a vida como dom. Não pedi para viver. Deu-ma Deus em primeiro lugar, como Criador. Meus pais, família, mestres, amigos, companheiros, enfim todas as pessoas com quem convivi nesses 80 anos contribuíram na construção da minha existência. Portanto, imensa gratidão! Ela nos livra da presunção e da arrogância. Sem dar-nos conta, tecemos a vida com os fios de cada pessoa com que encontramos, da que rezou por nós, de quem nos influenciou até mesmo através dos séculos pelos escritos, pelo enriquecimento da tradição que nos envolve. Perdem-se no infinito todos aqueles e aquelas que me marcaram o existir.

- Conte-nos sobre sua infância, adolescência, como despertou sua vocação?

Há dois olhares sobre a existência: o factual e o interpretativo teológico. Nasci em Belo Horizonte de uma mãe extremamente religiosa, da piedosa tradição do Sul de Minas e de um pai intelectual, professor catedrático de Medicina na então Escola de Medicina de Belo Horizonte, futura UFMG. Ele não praticava a religião, mas tinha o traço religioso da tradição familiar. A religião entrava-me pelos olhos e se vestia de beleza na forma da prática católica. Depois da morte de meu pai, quando era ainda criança, bastou o convite de um padre jesuíta para ir para o Rio de Janeiro, onde havia uma espécie de Seminário menor moderno. Com quase 12 anos não se sabe bem o que vem a ser padre. Mas ao longo dos anos em contacto com os jesuítas do Rio a vocação foi clareando até eu entrar no noviciado beirando os 16 anos. Com o olhar da fé, leio tudo isso como sinal da presença de Deus que nos oferece oportunidades de vida por meio das circunstâncias aleatórias da história.

- Fale sobre sua opção pela Companhia de Jesus. O que lhe encantou e continua encantando?

A Companhia de Jesus, por sua presença na história do Brasil e pelas obras educativas, projetava a imagem de uma Ordem de peso evangelizador e intelectual. Ainda bem criança, tive primeiro contacto com os jesuítas quando fui ver o famoso missionário popular Pe. Arlindo Vieira que pregou na Igreja de São José dos padres redentoristas, a paróquia a que pertencia. Um segundo contacto veio de algo bem fortuito. Dois padres jesuítas estavam visitando casas em Belo Horizonte em busca de uma que pudesse ter as condições para aí iniciar o Colégio Loyola. Não sei por que bateram lá minha casa para vê-la. Mas não era grande suficiente para um colégio. Assim me ficaram na mente esses dois contatos esporádicos com os jesuítas. E belo dia outro padre jesuíta, Pe. Moutinho, visitando a casa de um tio, onde estava brincando, me interpela: que vc vai ser mais tarde? Nem sei por que, disse: padre. Bastou isso, para ele me levasse com quase 12 anos para o Rio, onde encetei a caminhada vocacional.

 A Companhia de Jesus ofereceu e ainda oferece excelentes condições para quem quiser ter formação sólida em filosofia, teologia ou mesmo em outra especialização. Aprecio muito esse traço. Além disso, nela tive oportunidade de conhecer pessoas de altíssimo nível espiritual e intelectual. E na sua tradição até mesmo recente deu à Igreja pessoas de muito valor. Basta lembrar nomes como Teilhard de Chardin, K. Rahner, H. de Lubac e entre nós homens como Pe. Franca, Pe. Vaz e outros muitos.

- Quem foram os seus principais mestres e como eles influenciaram em sua vida de padre e de teólogo? 

Determinadas pessoas me marcaram ao longo da formação sob diferentes aspectos. Em nível de colega, tive um amigo jesuíta alemão que naquele momento de adaptação ao Escolasticado de Frankfurt me foi de enorme ajuda. Depois ele saiu da Companhia e ainda vive com sua esposa já com boa idade. Mantemos ainda algum escasso contacto por e.mail. Em termos de personalidade, o jesuíta que mais me influenciou o encontrei em Roma no Colégio Pio Brasileiro: Pe. Oscar Müller. Esteve presente no início da minha primeira missão depois da 3ª Provação de orientar intelectualmente os estudantes do dito Colégio. Pe. Müller exercia a função de padre espiritual dos seminaristas e se tornou referência para mim pela profunda liberdade interior e em face das exterioridades comuns em nossas casas e no interior da Igreja. Pe. Antônio Aquino, que conheci ainda adolescente no tempo do Rio de Janeiro, incentivou-me ao estudo e me acompanhou especialmente por correspondência na formação intelectual. Devo a ele ter iniciado cedo a escrever. Tinha mentalidade bastante aberta para aqueles idos. Mantivemos amizade sincera e firme até a sua morte, embora tenhamos tomado posições intelectuais diferentes. Ele se encaminhou por vias mais conservadoras no final. No campo intelectual exceleu a figura do pe. Henrique Cl. de Lima Vaz. Depois que voltei da Europa em janeiro de 1969 vivemos a maioria dos anos na mesma comunidade até a sua morte em 2002. Nutrimos longa e profunda amizade. Com o modo de viver simples, com a dedicação aos estudos, com a extrema modéstia e vastíssima cultura serviu-me de modelo vivo para minha trajetória intelectual e existencial.

No horizonte amplo da teologia, vivi os anos de transformação da Igreja por ocasião do Concílio Vaticano II e então me alimentei daqueles teólogos que estiveram na gênese do Concílio, especialmente de K. Rahner. Devo a muitos deles o que aprendi de teologia.

- Durante os anos do Vaticano II, o senhor estava em Roma? Como o senhor vivenciou o Concílio? 

Comecei a exercer o cargo de Orientador de Estudos no Pontifício Colégio Pio Brasileiro em agosto de 1963. Estive presente na inauguração solene da segunda sessão do Concílio, presidida por Paulo VI, recém eleito papa. Recordo-me bem do impacto do discurso inaugural em que pedia aos padres conciliares que se debruçassem sobre a temática fundamental da Igreja. Que ela dissesse a si mesma quem ela era sob o duplo olhar para seu interior e para as relações com as outras denominações cristãs e religiosas, com o mundo contemporâneo na densa problemática atual.

Quase ao lado do Colégio Pio Brasileiro na mesma Via Aurélia 481, erguia-se a Domus Maria, sede da Ação Católica Italiana Feminina. Aí se hospedaram, durante o Vaticano II, quase todos os bispos brasileiros, juntamente com os da Hungria e de alguns outros países da África. Organizaram-se para eles, nas três últimas sessões do Concilio, 84 conferências de teólogos e de especialistas em diversos campos da moral, sociologia, exegese. Pude participar de muitas delas e assim entrei em contacto com homens, como K. Rahner, E. Schillebeeckx, Hans Küng, Oscar Cullmann, Y. Congar, B. Häring e inúmeros outros de altíssimo nível teológico. Verdadeiro banho daquela teologia moderna que gestou o Concílio. Certa vez,  convidei para dar uma palestra para nossos alunos o então jovem teólogo alemão Josef Ratzinger com quem tive momentos de encontro pessoal, ao buscá-lo, ao jantar com ele e ao levá-lo de volta, além de ouvi-lo na conferência . Como então ele não falava nenhuma língua latina, fez a conferência em Latim sobre a Igreja, povo de Deus. Naturalmente ter vivido em Roma nesses anos conciliares e pós-conciliares permitiu-me vivenciar a explosão renovadora que atravessou todos os rincões da Igreja, desde a liturgia até a vestimenta eclesiástica, passando pela disciplina dos seminários. Momento de muita criatividade e liberdade que gerou insegurança e descontrole em diversas instituições eclesiásticas. Daí se entendem as contra-reações surgidas nas últimas décadas.

- O senhor pode falar sobre o significado da Teologia da Libertação em sua vida, quais as conjunturas que lhe conduziram para essa opção teológica? 

Quando voltei ao Brasil em 1969, vivíamos o regime de ferro do AI-5. No entanto, comecei a trabalhar com jovens do final do segundo grau e universitários em linha de pensamento crítico. Nutríamo-nos naquela década da teologia hermenêutica e aberta do Concílio Vaticano II, da teologia política de J. B. Metz e  da esperança de J. Moltmann. Assim o campo estava preparado para dar o salto para a teologia da libertação. Modificamos o ângulo crítico teórico europeu para a realidade social de dominação a partir da situação das camadas populares numa perspectiva da libertação. Na CRB nacional, o pe. Marcello Azevedo criou a equipe teológica e a CNBB potenciou o Instituto Nacional de Pastoral. Nesses dois grupos, teólogos/as e outros/as cientistas se puseram a refletir sobre a Vida Religiosa e a Igreja naquelas conjunturas repressivas. Criaram-se espaço e clima para pensar a teologia crítica de viés social que se chamou “teologia da libertação” depois da publicação do livro de Gustavo Gutiérrez em 1971. Também participamos de Encontros Nacionais das Comunidades Eclesiais de Base que ofereceram excelente material para a reflexão teológica. Assim essa teologia crítica da realidade a partir dos pobres começou a influenciar os diferentes segmentos e setores da Igreja. A criação da coleção Teologia e Libertação por iniciativa de L. Boff e de outros levou-nos a pensar toda a teologia na perspectiva da libertação. Todos esses fatos e circunstâncias propiciaram o surgimento e desenvolvimento da TdL. Por ocasião de Puebla tivemos reunidos em bom número e colaboramos com bispos que nos pediam ajuda, embora já houvesse clima hostil aos teólogos da libertação. A caminhada da TdL não se processou tranquila e linearmente, mas com muitos tropeços, restrições, condenações, etc.

No entanto, ela prestou excelente serviço à Igreja da América Latina e também à de outros continentes, despertando visão comprometida da fé cristã. O fato de eu estar envolvido com todos esses fatores, contactos, grupos de reflexão, encontros de CEBs e outras coisas mais fez com que a minha teologia assumisse a conotação crítica no interior da Igreja e respeito às relações sociais.

- Em linhas gerais, o senhor pode narrar sua inserção pastoral em terras brasileiras, destacando aspectos que lhe foram marcantes? 

Dediquei 11 anos à Equipe Teológica da CRB e fiz parte da Equipe de Seminários da CLAR. A partir daí, desenvolvi ampla pastoral junto a religiosos e religiosas. Praticamente percorri todas as regionais da CRB do Brasil e quase todos os países da América Latina e alguns da Europa dando cursos, fazendo palestras e assessorando capítulos de religiosos e religiosas. Alguns dos meus primeiros livros nasceram dessa presença junto à Vida Religiosa.

Desenvolvi durante algumas décadas presença a um grupo de jovens secundaristas e universitários do Rio de Janeiro, Estado do Rio, Minas Gerais, especialmente Belo Horizonte, Juiz de Fora e alguns de São Paulo. Reuníamos várias vezes por ano em feriados prolongados para estudo, reflexão, espiritualidade. Até hoje mantenho contacto com eles. Por ocasião dos meus 80 anos,  um grupo de uns 80 se reuniram para relembrar aqueles anos e prometem continuar com algum encontro anual.

 Fiz parte da Equipe do Ibrades. Além de seminários e de grupo de pesquisa no Rio, circulávamos pelo Brasil, sobretudo em regiões carentes, para ministrar curso de formação social para agentes de pastoral. Desenvolvi atividade semelhante em outra frente pastoral por meio do Instituto Nacional de Pastoral de cuja equipe fiz parte durante alguns anos. Inclusive organizamos cursos para bispos.

As atividades no campo intelectual e pastoral paroquial exigiram de mim o maior  investimento de tempo e energia. Durante muitos anos ministrei cursos e palestras em vários países da América Latina, Europa e África. Ultimamente me tenho restringido ao Brasil. Ainda existe muita solicitação de palestras em Congressos, Simpósios, Cursos, Aula inaugural, etc.

Ainda no campo intelectual, absorve-me tempo e dedicação a tarefa de professor e escritor. Leciono teologia em nível de graduação e pós-graduação na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Belo Horizonte com tudo o que implica tal tipo de atividade em termos de aula, direção de estudos, orientação de monografias, dissertações e teses. E em articulação com tal função, dedico considerável tempo a escrever artigos e livros.

Finalmente, já desde o início da década de 60 assumi cada vez mais presença pastoral na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes em Vespasiano, como vigário paroquial do padre Lauro, sacerdote diocesano. Ofereço colaboração nas celebrações, cursos, palestras, visitas a doentes, bênção de casas, administração de sacramentos, atendimento regular às pessoas que me procuram. Algumas paroquianas deram-se, já faz décadas, ao cuidadoso trabalho de gravar as homilias e as publicaram em nove livros, encerrando a coleção. Doravante, elas as colocarão no site que elas mesmas alimentam. Aí se inserem também artigos que escrevi e que estou a escrever.

- Quais foram as grandes questões ou problemáticas que lhe implicaram como teólogo e pensador?

Resumiria nas duas palavras do Grupo de Pesquisa que oriento: Fé e contemporaneidade. Meu modelo de teologia se espelha na Constituição Pastoral Gaudium et spes. Esforço-me por pensar os problemas contemporâneos à luz da fé cristã. Predomina, portanto, a perspectiva de teologia fundamental e de reflexão sobre a cultura atual. Nesse campo, escrevi os meus livros de maior densidade e extensão. Entre eles citaria: . Teologia da revelação a partir da modernidade. [São Paulo: Loyola, 5ª ed. 2005]; Eu creio, nós cremos: tratado da fé. [São Paulo: Loyola,2ª. Ed. 2005]; A Religião no início do milênio,[ São Paulo, Loyola, 2012, 2ª ed.]; Olhando para o futuro: Prospectivas teológicas e pastorais do Cristianismo na América Latina, [São Paulo, Loyola, 2003]; Os carismas na Igreja do Terceiro Milênio. Discernimento, desafios e práxis, [São Paulo, Loyola, 2007]; Em busca de Lucidez. O fiel da balança. [São Paulo, Loyola, 2008].

Trabalhei temas bem diversos da pastoral e da metodologia como os livros: A arte de formar-se, [ São Paulo, Loyola, 2004, 4ª ed.] e Introdução à vida intelectual São Paulo: Loyola,  2006, 3ª ed.]. Enfim, optei, não pela linha do especialista, mas do generalista, na expressão de Edgar Morin. Alimento semanalmente duas colunas de Jornal [Jornal de Opinião e O Tempo de Belo Horizonte] além do site da Faculdade Dom Helder.

- O que lhe motiva a caminhada como padre, educador, escritor, teólogo? Como concilia essas diversas dimensões em sua vida? 

IMG_4486.jpgCada vez mais frequento o Jesus histórico e a partir dele busco luz para a vida, pastoral e estudos. Aliás, pertence ao cerne da espiritualidade inaciana dedicar nos Exercícios Espirituais amplíssimo espaço às meditações dos mistérios da vida de Jesus. Hoje com a contribuição da exegese e de estudos históricos, a figura do Jesus palestinense, mesmo que lido à luz da ressurreição, se nos torna expressiva e instigante.  E impressiona-me em Jesus a liberdade em face das formalidades e costumes da época, considerados lei de Moisés. Jesus apelava para o princípio superior do bem das pessoas, a partir do qual interpretava as prescrições. Não se enroscava em discussões formais de legalidades, próprias dos fariseus de seu tempo.

No momento atual de pós-modernidade vivemos o paradoxo de extrema subjetividade e de ritualismo exterior acentuado. A subjetividade não se molda pela liberdade interior, nascida da experiência da proximidade de Jesus, mas da autocentração hedonista e narcisista. E o ritualismo reforça tal perspectiva. A própria exterioridade confirma o lado autocentrado da pós-modernidade.

Jesus aporta claro antídoto a tal tendência já que ele afirma, como norma suprema, o amor de si até a entrega da vida pelo e para o outro. Não há maior amor que dá a vida. Vida hoje significa tempo, cuidado, liberdade de e para, serviço. 


- Ao celebrar 80 anos, qual é a mensagem de vida o que senhor gostaria de compartilhar com os leitores da IHU On-Line?

Palavra de incentivo à liberdade, à capacidade crítica, iluminada pelo cuidado das pessoas nas pegadas do Jesus palestinense. Há duros sofrimentos escondidos atrás de aparentes belezas. Dói às pessoas a percepção de que lhes falta alguém a interessar-se por elas e a cuidar delas. Ao cristão caberia hoje a missão de especial cuidado especialmente pelos desprezados, marginalizados, deixados fora do círculo de humanidade. Continua viva mais do que nunca a mensagem de Jesus de que ele se identifica com o que tem sede, fome, está desnudo,  preso, enfermo, sente-se estrangeiro política e religiosamente. E a esses, que, em linguagem do atual sistema, se chamam excluídos, se dirige nossa principal atenção. Acrescente-se a necessidade de especial cuidado para com o Planeta Terra, cuja destruição semeia morte por todos os lados. 

Essa última palavra de cuidado leva-me a pensar na figura maravilhosa de D. Luciano Mendes de Almeida. Ele viveu, em grau heroico, o cuidado minucioso, atento às pessoas necessitadas, àquele que dorme na rua, à menina de rua carente de carinho, ao ancião esquecido da família. Fique o exemplo desse homem extraordinário como lembrança e estímulo para nossa vida de cristão.

LIBANIO, João Batista. Acolhi a vida como dom. IHU on Line, São Leopoldo, v.12, n.394, p, 7-12, 28 maio 2012. Entrevista concedida por e-mail à Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa.